Espaço para cres-Ser

9 Out 2018

Os desafios da adolescência não se limitam aos filhos, mas estendem-se aos pais pela extensão das mudanças que ocorrem e dos novos papéis que uns e outros passam a assumir numa relação já existente, vivida com ténues fronteiras. Talvez um dos maiores desafios se relacione precisamente com esta necessidade de os pais encontrarem um equilíbrio entre aquilo que é partilhado e aquilo que, a partir desta etapa, se torna privado.

Durante estes anos, num processo em que os adolescentes se começam a descobrir interiormente, onde e como se posicionam nas relações e no meio que os rodeia, surge pela primeira vez um pedido de privacidade: a necessidade de que lhes seja concedido mais espaço, físico e emocional. Faz parte do caminho para se tornarem adultos que lidem com estas mudanças com independência, treinando a sua capacidade de responsabilidade. O facto de quererem mais privacidade não significa que tenham algo a esconder - na maioria das vezes quer apenas dizer que começam a ter uma vida que nem sempre é partilhada com todos, mas que fica reservada aos seus intervenientes ou apenas a si mesmos.

A dificuldade e o medo em conceder esta privacidade está no que pode acontecer, no sofrimento que pode existir e nos riscos que podem ser cometidos. O cérebro adolescente ainda se está a desenvolver, o que significa que os adolescentes às vezes tomam decisões rápidas e nem sempre pensam nas consequências do seu comportamento - é portanto normal que existam receios e reticências em conceder-lhes espaço. Desta forma, é importante que na sua necessidade de espaço, os adolescentes encontrem pais discretos, mas presentes e orientadores.

Ajuda definir com os adolescentes alguns limites, por exemplo, que ao chegarem a casa da escola enviem uma mensagem, quanto tempo podem estar com aparelhos eletrónicos, que tipo de jogos, séries, desenhos ou sites podem consultar, a que locais podem ir, etc, explicando o porquê de ser assim, dando a conhecer a intenção que está por trás e garantindo que, dentro destes limites, eles têm a sua privacidade. Num exemplo prático, os pais sabem onde o filho vai estar no sábado à noite, como vai e volta, se estará com supervisão de adultos ou não, se é um local que serve bebidas alcoólicas, etc. Por outro lado, há um espaço cedido à privacidade do adolescente, o adolescente não tem que dizer o que conversou com os amigos, com quem dançou, porque está alegre ou porque regressou triste se não quiser. Mas como em tudo, cabe aos pais dosear o que é normal. Se um adolescente passa muitas horas no seu quarto, nunca quer falar ou parece muito retraído - mesmo quando os pais tentam manter as linhas de comunicação abertas e respeitam o seu espaço - pode ser um sinal de alerta de que algo não está bem e nestes casos é também importante falar abertamente com os adolescentes, no sentido de encontrar uma solução.

De um modo geral, é de esperar que as portas dos quartos se fechem, que as respostas sobre o que fizeram com os amigos se tornem mais curtas, que ao estarem em casa queiram estar sozinhos, que possam preferir entrar nas consultas médicas sozinhos, que saiam da sala quando conversam com amigos e tanto mais. Conceder-lhes esta privacidade, é dar-lhes espaço para cres-Serem num gesto que lhes transmite confiança e autonomia.

 

Eliana Silva, Psicóloga