Foco da atenção, uma das competências essenciais no séc. XXI

12 mar 2019

- João. João. João!!!
- Sim “stora”, desculpe.
Tenho de estar atento, mas há mil distrações lá fora. O telemóvel não para de vibrar. São centenas de notificações por dia. Estou ansioso por voltar àquela conversa com os meus amigos. Foi uma paródia. E a Joana… não me sai da cabeça. Tenho quase a certeza que ela olhou para mim. Mas também me estava a lembrar que logo à noite tenho um jogo online marcado com aquele grupo. Tem pelo menos um chinês, um holandês, dois portugueses e nem sei quem mais. O jogo é demais! Os cenários, as cores, os sons que parecem mesmo reais e tanta ação. Adoro aquelas missões. E o treino de logo? Promete. O Mister disse que hoje vamos fazer um jogo entre nós e quem perder vai ter de fazer 30 flexões de braços. Mas antes disso não me posso esquecer de ir à aula de inglês e de guitarra. O professor de guitarra quer que eu tenha aquela música preparada, a de inglês a lição estudada e a de Português, que é já a seguir, não me deixa adiar mais a apresentação do livro. Enfim, um dia normal, igual a tantos outros. Ah! Lembrei-me agora, a minha mãe pediu-me para passar pela casa da minha avó e trazer uma caixa de ovos da loja. Já não sei se o meu Pai me pediu alguma coisa….
- João. João!!! Outra vez na lua.
- Sim “stora”, desculpe.

Este é o dia-a-dia do João e de tantos outros jovens. Mil estímulos. Mil pensamentos. Mil exigências. Mil focos. Não é por coincidência, nem por defeito de fabrico que nos últimos anos têm disparado o número de casos de Síndrome de Hiperatividade, de Síndrome do Défice de Atenção e de Depressão. Com um mundo cada vez mais acelerado, estimulante e exigente, urge dar espaço e tempo para cada coisa, desacelerar, apreciar a pausa e treinar o foco.

O treino da atenção plena é uma das competências mais importantes a ser dada aos nossos jovens. E aos adultos também. A ciência tem vindo a demonstrar que quanto mais dispersa estiver a atenção, menor será a capacidade: cognitiva para a resolução dos problemas, para estimular a criatividade, para sentir satisfação com a vida… Ou seja, muitos estímulos, menor dedicação e dificuldade em fazer escolhas e viver o momento.
Na verdade o que fazemos é transitar rapidamente entre pensamentos, focos, em série. Se prestarmos atenção a mais do que uma coisa, a verdade é que não vivemos nenhuma em pleno e intensamente. Como, por exemplo, ler um livro e responder a mensagens no telemóvel. Se quisermos resolver problemas mais complexos, fazer um teste, integrar uma informação que nos está a ser dada, escrever um texto ou ser criativos, precisamos de estar mesmo presentes, focados, com atenção plena.
É possível fazermos mais do que uma coisa ao mesmo tempo, mas será que atingimos aquilo que realmente pretendemos?

E como poderemos treinar isso com os nossos jovens?
Desde há alguns milhares de anos, que algumas pessoas foram desenvolvendo esta capacidade, mas só nos últimos 30 é que a ciência se dedicou mais a fundo a esta questão. Hoje, sabemos que é possível transitar rapidamente entre focos, mantendo toda a capacidade. Mas há um aspeto mesmo muito importante, devemo-nos focar numa coisa só de cada vez. 
Faça uma experiência. Pare durante 1 minuto e esteja atento ao silêncio. Algo simples. Repare no número de vezes que a sua mente o levou para outros pensamentos. Foi isto que lhe aconteceu, certo? Acontece a todo o momento. Um transitar acelerado de pensamento em pensamento. Para treinar o foco, podemos começar com o treino simples de prestar toda a nossa atenção a coisas simples do dia-a-dia. Sentir a textura e sabor do alimento que mastigamos. Escutar os sons lá fora e prestar-lhes toda a nossa atenção, sem fazer julgamentos sobre o que se está a passar ou se deveríamos escutar algo diferente daquilo que estamos a escutar. Cheirar o pão, o perfume, os aromas da rua por onde passamos… Observar atentamente a paisagem ou o detalhe do que está ao nosso redor. Sentir os passos, o movimento do nosso corpo, a respiração… Dedicar toda a nossa atenção ao que estamos a fazer no único momento em que estamos, ao presente. O aqui e o agora. Este pode ser um primeiro grande passo. Esta é a prática informal de Mindfulness. A prática formal, o próximo passo, passa pelo treino da atenção plena ao corpo ou a algo externo, mas de forma intencional, sem estar a fazer algo ou a querer chegar a qualquer sitio. É estar de forma intencional e exclusiva nesse treino. Pode ser feito de pé, a caminhar, deitado ou sentado. 
Estudar, explorar e praticar a atenção plena (Mindfulness) é a proposta que deixo. Vai experimentar?

Marco Clemente

 

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