Maria Vigário: "Tempos estranhos, estes, que vivemos"

11 Mai 2020

Todos estamos a viver este período de forma diferente, e, assim sendo, é possível reunir várias perspetivas e balanços destes dias, que, com certeza, iriam divergir bastante. Seria interessante, por exemplo, reunir a perspetiva dos solteiros que vivem sozinhos, a perspetiva dos jovens ou a perspetiva de pais, fechados em casa com crianças cheias de energia.... para esses, em especial, faço questão de dizer que sinto por todos vós uma grande admiração!

Vou limitar-me a falar apenas da quarentena de uma jovem normal, de 17 anos, que vive com os pais e com um irmão de 12 anos. Confesso que não estava habituada a estar dias inteiros fechada em casa, nem conseguia, achava eu. Bastava-me ir tomar um café a uma esplanada, ir correr com os meus amigos, passear, ver pessoas, qualquer coisa que implicasse sair de casa me alegrava, mesmo que fosse por pouco tempo.

Acredito que mesmo para aqueles que são mais caseiros, este confinamento também se tenha tornado um grande desafio e um período de grande adaptação. Muitos dos nossos planos e projetos foram por água abaixo e outros adiados para datas que são impossíveis de prever. Perdemos algumas das nossas liberdades básicas e ganhámos um sentimento enorme de saudade de familiares e amigos, uma vontade enorme de os voltar a abraçar, ganhámos medo de todas as pessoas que se aproximam de nós em espaços públicos, ganhámos medo, até, de sair à rua. 

Tempos estranhos, estes, que vivemos.

Porém, este período não tem apenas aspetos negativos, como disse, tornou-se um verdadeiro desafio e trouxe muitas coisas novas à minha vida.

Deixei de procrastinar por não ter tempo para ler e comecei a fazê-lo. Para tal, fiz a minha primeira compra online (é verdade, a primeira... confesso que era um pouco retrógrada nesta área), aprendi receitas novas, mudei a decoração do meu quarto, aprendi a organizar-me melhor e a gerir melhor o meu tempo de forma a não perder a rotina, ser produtiva e ao mesmo tempo ter algum tempo de lazer. Comecei a correr e a dar caminhadas, aprendi a fazer unhas de vernigel, pesquisei mais sobre assuntos que me interessam, como programação neurolinguística, e mantive sempre contacto com os meus familiares e amigos. Ao contrário do que seria esperado, não sinto que este período me tenha afastado deles, pelo contrário, na azáfama da rotina, acabava por me esquecer de ligar aos meus avós e a alguns amigos com quem não passava tanto tempo. Este período foi para mim como que um género de sinal para abrandar e dar mais importância para o que realmente importa, surgiu também como um período de grande reflexão, e fez-me perceber e dar mais valor à vida que tínhamos, às pessoas que amamos, perceber que não podemos nunca deixar de dizer o quanto gostamos delas.

Fez-me pensar que não sabemos como será o dia de amanhã e que aquilo que podemos e devemos fazer, é estar gratos pela nossa saúde e por cada dia que aqui passamos.

Apesar de poder parecer que não, ainda há coisas boas nesta quarentena, é preciso tentar tirar o melhor partido de tudo o que nos acontece. 

Mária Vigário

Aluna na Escola Secundária D. Inês de Castro